quinta-feira, 23 de setembro de 2010

a signora do lago


Passa os dias a plantar árvores. Arquitetando moradas de passarinhos.
Sombra e água fresca, semeia. Nada para si, para os netos, os netos deles.
Arruma o futuro, coisa de quem saboreia imortalidades.
A cada árvore que finca no chão são mais sementes, mais folhas, mais renasceres.
Os vizinhos, ao cabo do primeiro ano, vieram ver.
Também notaram que ela perfumava.
Cheira a relva, a flor de laranjeira, a dama da noite, conforme o dia.
Quando sorri, são como vagalumes, os sorrisos, alam-se.
Depois do quinto ano passado, já colheu riachos.
Foi quando apareceram os peixes.
Começou a reparti-los, como é de preceito.
E os vizinhos, os ovos, o leite, as flores e mel.
Entendeu então que semeia o tempo da fartura.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

caminho do campo


ir pescar
o lambari
com meu pai

avalon


de manhã todas as gatas
são brumas

sem culpa


o mundo me amola
eu fico afiada

quinta-feira, 15 de abril de 2010

per seeing

revelação

Sabe como é criança. Acorda você às seis, corre o dia inteiro, não responde para o almoço, o banho é uma batalha, e essa, em especial, vinha às onze da noite com cadernos e caneta para aprender a escrever. Só para não ir dormir.
Fazia as sílabas, mas não conseguia juntá-las.
Quando viu os filhos do caseiro com os cadernos, não adiantou explicação: são mais velhos, tua aula é depois, vão se sentir humilhados. Criança não conhece tal palavra.
Olho comprido, livro debaixo do braço, pedinte.
Um dia depois, escutou o mais velho soletrando e emendando .
À noite, conseguiu. Lembrou-se da primeira sílaba, da segunda, da terceira e disse a palavra inteira.
O segredo acabou, sussurrou, entre maravilha e desaponto.
Momento sagrado e terrível para nós duas.
Pertencia agora ao mundo codificado do alfabeto.

quinta-feira, 18 de março de 2010

valsa

quero ouvir uma valsa
uma valsa para ficar bem triste
triste de arzinho fatalista
fadista

terça-feira, 9 de março de 2010

cadeias






Brincos contam histórias. Cara de bebê não tem sexo, viram atestado.
Se a mãe não furou, na puberdade a menina inaugura-se mulher. Primeiro tesão.
Grandes argolas, perolazinhas, de um lado só, em cascata. Todos simbolizam.
Às vezes o namorado engole, com a idade a orelha pende, fica o rastro, uma fenda no lóbulo.
As mais pobres não deixam faltar.
Quando menos se tem, maior o apreço, único enfeite é
o que enfeita mais.
Um talismã além da vaidade, para revelar de propósito o mistério.
Na falta de aro, a companheira usou cabelo trançado.
Matéria de força, para valer mais que ouro.
Dormiam as duas na mesma cela.

março

pronto socorro

Sentia dores na barriga. A mãe nem muito aflita, falava pela filha. Não parecia doente, não comera nada de diferente. Nem febre tinha.
Examinada, trouxeram correndo a maca.
Foi para a obstetrícia, tive que informar. Indignou-se. Mas então era um erro, tinha dores na barriga.
A criança está nascendo, minha senhora, disparou um desalmado por cima do meu ombro.
Há mães de olhos virgens quando o real estupra-lhes a vontade.
Viu-se avó, num corredor, abruptamente avó.
As mortes sim, por mais que sabidas, são sempre súbitas. Os nascimentos anunciam-se, vêm aos poucos.
A filha vinha inesperando um bebê.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

vida de mãe

escove os dentes
tire seu prato
gostou do almoço?
arrume sua cama
fez cocô hoje?
durma bem, querido

diverte, cansa, enternece
foi bom, durou duas semanas

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

pedra

tudo na pedra
medra
fungo liquen avenca
em coração de pedra
não

pedra









sábado, 23 de janeiro de 2010

fox trote

eu tenho
eu tenho idade
eu tenho idade para ser
eu tenho idade para ser tua
eu tenho idade para ser tua mãe

........mas eu não sou

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010


skp

duas amigas e um amigo velam comigo noite adentro
ninguém se fala nessa conversa de signos e bites
duas amigas e um amigo são sinais verdes na lista do skype
velamos, solidões ligadas
na bio-lápide internética, nomes, frases, retratos

posso continuar sonhando

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

água mole

nas esquinas das mansões rodamoinhos currupiam zombando do asfalto. cidade frágil, água mole tanto cái em São Paulo pedra dura que depura, depura. água futura.

domingo, 3 de janeiro de 2010


poema inútil


por que dizer de novo
nada podes quando o amor te pega
flecha de moleque abusado
tropeção soluço coceira
inexorável como o dia

nada a dizer de novo
toca a deixar bater no peito
incômodo
abismo
delírio delícia

sábado, 2 de janeiro de 2010

eu sou do tempo

Eu sou do tempo do leite de magnésia, que minha mãe e minha tia davam pra gente, molecada de férias no campo, empanturrados de comida e de doces feitos no fogão a lenha. Nunca sabiam se era pra soltar ou pra prender, em todo caso, davam. Sempre havia um no banheiro, aflito com a torcida do lado de fora, gozando com o infeliz lá dentro. Eu dormia sozinha, única mulher, no quarto em frente à cozinha, . Ouvia as risadas dos irmãos e dos primos nos beliches, concurso de pum ateado com fósforo, uma coragem que nunca tive. As meninas aprendem a prudência. Onde já se viu arriscar a queimar a bunda, brincadeira besta. Muito se riam, os sacanas.
O problema porém é ter que dizer eu sou tempo de, não esperava isso tão cedo, coisa de gente antiga, com mais cabelo branco do que tenho, fui a última das minhas amigas a encanecer , (já que é para ser antiga ).Hoje sou a única a tê-los, os cabelos brancos. Não vou fingir o tempo, era só o que não me falta e sim, tanto e tão pouco, já chega me sentir sem época, naquela de nós que amávamos tanto a revolução. O meu consolo foi ouvir de um italiano que também eles tiveram vinte anos durante vinte anos.
É que o mundo ficou muito picareta, outro dia comprei um pão todo integral,fui ler a bula, diz que tem magnésio, o mineral anti stress. Eu sinceramente, não posso com uma coisa dessas. Essa mania de atomizar tudo, como se fôssemos um amontoado de moléculas, tira uma aqui, põe outra nova ali, pode continuar a 120 por hora, doze horas por dia, é só tomar magnésio. E o tal vem solto, espalhando seu poder invisível, não gruda na língua e nem deixa aquele gosto de talco , agora aguenta, quem mandou comer tanta goiabada.
Nunca mais me levantei tão cedo, camisa de flanela, calça rancheira e alpargatas , subia e descia morro, as trilhas dos últimos dos moicanos.
Menina de cidade, entrava e saía dos livros, esquecendo o horror dos prédios à frente da janela.
Pois esse tal de magnésio me apareceu de novo esta semana, uma amiga voltou do médico de medicina chinesa em português, que leu nos olhos dela que estava fraca do fígado e tome magnésio. Um verdadeiro prodígio, fazer uma leitura assim de átomo na pintinha da íris , melhor que ele só seu Chico pinguço que passava todo dia, descendo pra vila, depois de ler os gráficos da estação metereológica, ( em que a gente mexia à vontade), vaticinando: se parar de ventar,pinga. Nuvem ou não, o céu não era mistério.
Pois devo dizer, a bem da verdade, na escola de medicina ensinaram-me que depois de dez anos, a quarta parte daquilo que me faziam à força decorar de tintim em tintim já não valeria. Foi quando eu comecei a desaprender.
Gosto mesmo é de ver as trilhas por entre os matos que crescem soltos, onde o pisar miúdo de pé cascudo marca o caminho. Faço como nha Dita, do alto do morro, um filho de cada homem, deixava os sapatos limpos pra calçar na vila. Quando chegar ao céu, calço diploma, poses e comportamento, a alma, enfim, sem vergonha de saber que tudo é vento, se parar de ventar, pinga.

levar água nas asas

a possível leveza

de quem aprendeu a voar

amarrada


desculpem, não tenho produzido muita coisa.
ultimamente ando meio amarrada...