quinta-feira, 18 de março de 2010

valsa

quero ouvir uma valsa
uma valsa para ficar bem triste
triste de arzinho fatalista
fadista

terça-feira, 9 de março de 2010

cadeias






Brincos contam histórias. Cara de bebê não tem sexo, viram atestado.
Se a mãe não furou, na puberdade a menina inaugura-se mulher. Primeiro tesão.
Grandes argolas, perolazinhas, de um lado só, em cascata. Todos simbolizam.
Às vezes o namorado engole, com a idade a orelha pende, fica o rastro, uma fenda no lóbulo.
As mais pobres não deixam faltar.
Quando menos se tem, maior o apreço, único enfeite é
o que enfeita mais.
Um talismã além da vaidade, para revelar de propósito o mistério.
Na falta de aro, a companheira usou cabelo trançado.
Matéria de força, para valer mais que ouro.
Dormiam as duas na mesma cela.

março

pronto socorro

Sentia dores na barriga. A mãe nem muito aflita, falava pela filha. Não parecia doente, não comera nada de diferente. Nem febre tinha.
Examinada, trouxeram correndo a maca.
Foi para a obstetrícia, tive que informar. Indignou-se. Mas então era um erro, tinha dores na barriga.
A criança está nascendo, minha senhora, disparou um desalmado por cima do meu ombro.
Há mães de olhos virgens quando o real estupra-lhes a vontade.
Viu-se avó, num corredor, abruptamente avó.
As mortes sim, por mais que sabidas, são sempre súbitas. Os nascimentos anunciam-se, vêm aos poucos.
A filha vinha inesperando um bebê.