sábado, 2 de janeiro de 2010

eu sou do tempo

Eu sou do tempo do leite de magnésia, que minha mãe e minha tia davam pra gente, molecada de férias no campo, empanturrados de comida e de doces feitos no fogão a lenha. Nunca sabiam se era pra soltar ou pra prender, em todo caso, davam. Sempre havia um no banheiro, aflito com a torcida do lado de fora, gozando com o infeliz lá dentro. Eu dormia sozinha, única mulher, no quarto em frente à cozinha, . Ouvia as risadas dos irmãos e dos primos nos beliches, concurso de pum ateado com fósforo, uma coragem que nunca tive. As meninas aprendem a prudência. Onde já se viu arriscar a queimar a bunda, brincadeira besta. Muito se riam, os sacanas.
O problema porém é ter que dizer eu sou tempo de, não esperava isso tão cedo, coisa de gente antiga, com mais cabelo branco do que tenho, fui a última das minhas amigas a encanecer , (já que é para ser antiga ).Hoje sou a única a tê-los, os cabelos brancos. Não vou fingir o tempo, era só o que não me falta e sim, tanto e tão pouco, já chega me sentir sem época, naquela de nós que amávamos tanto a revolução. O meu consolo foi ouvir de um italiano que também eles tiveram vinte anos durante vinte anos.
É que o mundo ficou muito picareta, outro dia comprei um pão todo integral,fui ler a bula, diz que tem magnésio, o mineral anti stress. Eu sinceramente, não posso com uma coisa dessas. Essa mania de atomizar tudo, como se fôssemos um amontoado de moléculas, tira uma aqui, põe outra nova ali, pode continuar a 120 por hora, doze horas por dia, é só tomar magnésio. E o tal vem solto, espalhando seu poder invisível, não gruda na língua e nem deixa aquele gosto de talco , agora aguenta, quem mandou comer tanta goiabada.
Nunca mais me levantei tão cedo, camisa de flanela, calça rancheira e alpargatas , subia e descia morro, as trilhas dos últimos dos moicanos.
Menina de cidade, entrava e saía dos livros, esquecendo o horror dos prédios à frente da janela.
Pois esse tal de magnésio me apareceu de novo esta semana, uma amiga voltou do médico de medicina chinesa em português, que leu nos olhos dela que estava fraca do fígado e tome magnésio. Um verdadeiro prodígio, fazer uma leitura assim de átomo na pintinha da íris , melhor que ele só seu Chico pinguço que passava todo dia, descendo pra vila, depois de ler os gráficos da estação metereológica, ( em que a gente mexia à vontade), vaticinando: se parar de ventar,pinga. Nuvem ou não, o céu não era mistério.
Pois devo dizer, a bem da verdade, na escola de medicina ensinaram-me que depois de dez anos, a quarta parte daquilo que me faziam à força decorar de tintim em tintim já não valeria. Foi quando eu comecei a desaprender.
Gosto mesmo é de ver as trilhas por entre os matos que crescem soltos, onde o pisar miúdo de pé cascudo marca o caminho. Faço como nha Dita, do alto do morro, um filho de cada homem, deixava os sapatos limpos pra calçar na vila. Quando chegar ao céu, calço diploma, poses e comportamento, a alma, enfim, sem vergonha de saber que tudo é vento, se parar de ventar, pinga.

levar água nas asas

a possível leveza

de quem aprendeu a voar

amarrada


desculpem, não tenho produzido muita coisa.
ultimamente ando meio amarrada...